"Quando eu era menina
bem pequena
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima."
Cora Coralina, no seu poema Antiguidades,
levou-me à infância, na casa velha,
em Tuiutinga. Papai sempre levantava cedinho, catava gravetos no quintal ou pegava a palha debaixo
do fogão para acender o fogo e fazer o
café numa chaleira preta de ferro. O coador era de pano e o mancebo de madeira,
que foi substituído por um de ferro, de uma perna só. Café cheiroso e forte, torrado
pela vovó Avelina, a parteira do lugar. As batatas doces dormiam no borralho... Que delícia que era, principalmente as roxas, muito doces. Minha boca enche
de água só de lembrar. O nosso café era de rapadura, comprada às cargas, que
eram enroladas com jornal e colocadas numa tábua por cima do fogão de lenha,
para durar o ano todo. O fogão e o chão da cozinha eram feitos de tijolos. Todos
os dias o fogão tinha de ser barreado, para ficar branquinho. O piso com o
tempo ficou esburacado. Os outros cômodos da casa eram assoalhados, com tábuas
largas, paredes brancas bem rebocadas, janelas
e portas azuis. Naquela época não existia padaria e mamãe mandava buscar em
Guiricema dois sacos de roscas duras que comíamos durante a semana. Acabada a quitanda, algumas vezes se fazia uma broa de fubá,
assada na caçarola de ferro, forrada com folhas de bananeira e por cima uma
tampa de lata quadrada com brasas. Eu era mestre em roubar as roscas , que ficavam guardadas num quartinho da sala, em
cima de um guarda roupa, dentro de um saco e um balaio. Roubava também os doces
e figos secos que vovô nos trazia quando nos vinha visitar. Nossa mesa era
quadrada e no lugar dos pés, existia uma espécie de armário, com uma portinha e
chave. Nem sei como conseguia enfiar meu braço, por uma abertura tão pequena, que
ficava por baixo do tampo da mesa. Quem nunca roubou uma guloseima?
A criança vive inteira no seu presente precioso. Os adultos transitam entre o passado, o presente e o futuro e o que resta ao velho? As lembranças do passado e viver cada dia como um "presente" precioso.
09/01/2014,

Eu me vi lá na casa em tuiutinga. ..seu relato é muito claro e ao mesmo tempo poético e literário, madrinha. ..lindo!
ResponderExcluirObrigada querida, fez-me feliz. Beijos Te amo
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