sábado, 6 de junho de 2015

No espaço x tempo o entrelaçar das lembranças

         Fotografias feitas por Ana Lucas, em uma viagem a Tuiutinga e postadas no antigo
         fotolog do site Terra, com o pseudônimo de Hanna Gantous.


Li, faz tempo, uma crônica de Rubem Alves sobre "cartas de amor". Nessa ele descreve a emoção de quem recebe a correspondência, a sensação de imaginar o outro, de tocar algo que foi tocado por ele, de sentir o seu perfume...

Hoje, não sei se felizmente ou infelizmente, não nos comunicamos mais através das cartas. 
Não precisamos esperar dias e dias para o carteiro passar. 

Quando vim para Ipatinga, em 1967, nem telefone tínhamos, nos comunicávamos através de cartas.Guardo ainda, as de mamãe, papai e minhas irmãs.  Nossa caixa de correspondência tem apenas propagandas, extratos bancários e contas a pagar...Nada para guardar e relembrar.
Quando meu pai faleceu em fevereiro de 1970, recebemos a notícia através do primo Wanderley, que ligou da central telefônica de Guiricema, para um ponto de táxi em Ipatinga. Imagina, altas horas, um taxista batendo em sua porta. Foi um susto daqueles...
Nem me lembro mais o ano em que os telefones foram instalados em nosso bairro Imbaúbas, em Ipatinga.
Tinha 14 anos quando vi a primeira televisão, na casa de meu tio Fio, na cidade de Ubá. Em Tuiutinga, naquela época, não existia energia elétrica.
 Amava ver meu pai e seus amigos se reunindo em mutirão, para limpar o mato da estrada de terra, que dava acesso ao nosso arraial. Como era gostoso estar junto e sentir o aroma do mato sendo cortado...
Foi em nossa infância que aprendemos a amar as coisas simples que enchem nossos olhos e nossa alma: um  por de sol, uma lua cheia, um céu estrelado, passarinhos voando e cantando soltos, cheiro de terra molhada, depois de uma chuva abençoada. 
Quem gosta de biscoito de polvilho, cheiroso e quentinho, recém saído do forno ? 

Dona Geralda era a quitandeira do lugar. Forno grande, de tijolo barreado de branco...Sentíamos o cheiro quando o biscoito estava assado. Nossa rua era calçada de pedra e no meio havia uma carreira de pedra grande. Para comprar os biscoitos quentinhos, corríamos no meio da rua, pulando de pedra em pedra, até chegar na vendinha do Sr. Alexandre. Momento único, de  puro prazer e guardado em  nossas doces lembranças.

"...Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero. 
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também." 
Do Livro do Desassossego - 

Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)