segunda-feira, 1 de agosto de 2016
sábado, 6 de junho de 2015
No espaço x tempo o entrelaçar das lembranças
Fotografias feitas por Ana Lucas, em uma viagem a Tuiutinga e postadas no antigo
fotolog do site Terra, com o pseudônimo de Hanna Gantous.
Li, faz tempo, uma crônica de Rubem Alves sobre "cartas de amor". Nessa ele descreve a emoção de quem recebe a correspondência, a sensação de imaginar o outro, de tocar algo que foi tocado por ele, de sentir o seu perfume...
Hoje, não sei se felizmente ou infelizmente, não nos comunicamos mais através das cartas.
Não precisamos esperar dias e dias para o carteiro passar.
Quando vim para Ipatinga, em 1967, nem telefone tínhamos, nos comunicávamos através de cartas.Guardo ainda, as de mamãe, papai e minhas irmãs. Nossa caixa de correspondência tem apenas propagandas, extratos bancários e contas a pagar...Nada para guardar e relembrar.
Quando meu pai faleceu em fevereiro de 1970, recebemos a notícia através do primo Wanderley, que ligou da central telefônica de Guiricema, para um ponto de táxi em Ipatinga. Imagina, altas horas, um taxista batendo em sua porta. Foi um susto daqueles...
Nem me lembro mais o ano em que os telefones foram instalados em nosso bairro Imbaúbas, em Ipatinga.
fotolog do site Terra, com o pseudônimo de Hanna Gantous.
Li, faz tempo, uma crônica de Rubem Alves sobre "cartas de amor". Nessa ele descreve a emoção de quem recebe a correspondência, a sensação de imaginar o outro, de tocar algo que foi tocado por ele, de sentir o seu perfume...
Hoje, não sei se felizmente ou infelizmente, não nos comunicamos mais através das cartas.
Não precisamos esperar dias e dias para o carteiro passar.
Quando vim para Ipatinga, em 1967, nem telefone tínhamos, nos comunicávamos através de cartas.Guardo ainda, as de mamãe, papai e minhas irmãs. Nossa caixa de correspondência tem apenas propagandas, extratos bancários e contas a pagar...Nada para guardar e relembrar.
Quando meu pai faleceu em fevereiro de 1970, recebemos a notícia através do primo Wanderley, que ligou da central telefônica de Guiricema, para um ponto de táxi em Ipatinga. Imagina, altas horas, um taxista batendo em sua porta. Foi um susto daqueles...
Nem me lembro mais o ano em que os telefones foram instalados em nosso bairro Imbaúbas, em Ipatinga.
Tinha 14 anos quando vi a primeira televisão, na casa de meu
tio Fio, na cidade de Ubá. Em Tuiutinga, naquela época, não existia energia elétrica.
Amava ver meu pai e seus amigos se reunindo em mutirão, para limpar o mato da estrada de terra, que dava acesso ao nosso arraial. Como era gostoso estar junto e sentir o aroma do mato sendo cortado...
Amava ver meu pai e seus amigos se reunindo em mutirão, para limpar o mato da estrada de terra, que dava acesso ao nosso arraial. Como era gostoso estar junto e sentir o aroma do mato sendo cortado...
Foi em nossa infância que aprendemos a amar as coisas simples que enchem nossos
olhos e nossa alma: um por de sol, uma lua cheia, um céu estrelado, passarinhos voando e cantando soltos, cheiro de terra molhada, depois de uma chuva abençoada.
Quem gosta de biscoito de polvilho, cheiroso e quentinho, recém saído do forno ?
Dona Geralda era a quitandeira do lugar. Forno grande, de tijolo barreado de branco...Sentíamos o cheiro quando o biscoito estava assado. Nossa rua era calçada de pedra e no meio havia uma carreira de pedra grande. Para comprar os biscoitos quentinhos, corríamos no meio da rua, pulando de pedra em pedra, até chegar na vendinha do Sr. Alexandre. Momento único, de puro prazer e guardado em nossas doces lembranças.
Quem gosta de biscoito de polvilho, cheiroso e quentinho, recém saído do forno ?
Dona Geralda era a quitandeira do lugar. Forno grande, de tijolo barreado de branco...Sentíamos o cheiro quando o biscoito estava assado. Nossa rua era calçada de pedra e no meio havia uma carreira de pedra grande. Para comprar os biscoitos quentinhos, corríamos no meio da rua, pulando de pedra em pedra, até chegar na vendinha do Sr. Alexandre. Momento único, de puro prazer e guardado em nossas doces lembranças.
"...Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."
Do Livro do Desassossego - Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."
Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Na casa velha de Tuiutinga
"Quando eu era menina
bem pequena
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima."
Cora Coralina, no seu poema Antiguidades,
levou-me à infância, na casa velha,
em Tuiutinga. Papai sempre levantava cedinho, catava gravetos no quintal ou pegava a palha debaixo
do fogão para acender o fogo e fazer o
café numa chaleira preta de ferro. O coador era de pano e o mancebo de madeira,
que foi substituído por um de ferro, de uma perna só. Café cheiroso e forte, torrado
pela vovó Avelina, a parteira do lugar. As batatas doces dormiam no borralho... Que delícia que era, principalmente as roxas, muito doces. Minha boca enche
de água só de lembrar. O nosso café era de rapadura, comprada às cargas, que
eram enroladas com jornal e colocadas numa tábua por cima do fogão de lenha,
para durar o ano todo. O fogão e o chão da cozinha eram feitos de tijolos. Todos
os dias o fogão tinha de ser barreado, para ficar branquinho. O piso com o
tempo ficou esburacado. Os outros cômodos da casa eram assoalhados, com tábuas
largas, paredes brancas bem rebocadas, janelas
e portas azuis. Naquela época não existia padaria e mamãe mandava buscar em
Guiricema dois sacos de roscas duras que comíamos durante a semana. Acabada a quitanda, algumas vezes se fazia uma broa de fubá,
assada na caçarola de ferro, forrada com folhas de bananeira e por cima uma
tampa de lata quadrada com brasas. Eu era mestre em roubar as roscas , que ficavam guardadas num quartinho da sala, em
cima de um guarda roupa, dentro de um saco e um balaio. Roubava também os doces
e figos secos que vovô nos trazia quando nos vinha visitar. Nossa mesa era
quadrada e no lugar dos pés, existia uma espécie de armário, com uma portinha e
chave. Nem sei como conseguia enfiar meu braço, por uma abertura tão pequena, que
ficava por baixo do tampo da mesa. Quem nunca roubou uma guloseima?
A criança vive inteira no seu presente precioso. Os adultos transitam entre o passado, o presente e o futuro e o que resta ao velho? As lembranças do passado e viver cada dia como um "presente" precioso.
09/01/2014,
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Um par de luvas amareladas
Nos meus guardados, encontrei um par de luvas amareladas. As
lembranças afloraram. Era 09/12/56, meu avô fora soterrado enquanto dormia e
morrera. Ocorrera uma forte tempestade em Visconde do Rio Branco e uma casa em
construção ao lado da casa de meu tio desmoronou, soterrando meus primos e meu
vovô. Eles eram jovens e resistiram, ele infelizmente não conseguiu.O que tem a ver um par de luvas com a morte de meu avô? Nossa
formatura da 4ª série primária seria no dia seguinte, em Guiricema, onde eu
estudava e morava com minha tia Fia, pois em Tuiutinga as professoras só lecionavam até a 3ª série.Era costume da época fazer o encerramento do ano letivo com a entrega dos
diplomas de conclusão do curso primário,
no antigo cinema da cidade , pois a
maioria dos alunos não continuaria seus estudos . Fui escolhida para oradora da nossa turma. Mamãe mandara fazer um
vestido lindo, de tule azul, com forro de tafetá e comprara
as luvas brancas, salpicadas de bolinhas em alto relevo, que
infelizmente nunca usei. Na manhã do dia 10, minha tia Fia, aproximou-se de mim
e disse que eu não iria , pois estávamos de luto e não ficaria bem a nossa
presença numa festa. Chorei muito...muito... Estava triste pela perda de meu avô e a da minha formatura. Mamãe usou roupas pretas durante um ano e só saía para ir à igreja. Eu e
minhas irmãs passamos a usar vestidos
brancos, com estampa de flores pretas e meus irmãos usavam uma tarja preta na manga da camisa em
sinal de luto. Hoje, não se ostenta nada
para demonstrar nossas perdas. A vida não para à espera da passagem de nossas dores.Nunca usei a luva, mas hoje, descobri nela um rasgo e uma
costura feita a mão. Ela foi útil e muito usada por todas as minhas quatro
irmãs menores nas coroações de Nossa Senhora, em Tuiutinga.Depois da formatura, recebi a visita de nossa querida e
amada professora Maria do Carmo Torres. Deu-me de presente um livro de Francisco Marins, A Aldeia
Sagrada, que contava a estória de
Canudos e Antônio Conselheiro. Este foi
o primeiro livro de literatura que ganhei, com uma bela dedicatória. Guardo-o comigo como um precioso tesouro. Em
1964, retornei a Guiricema, ao Grupo Escolar Cel. Luís Coutinho, onde iniciei minha
carreira como professora e colega de minha querida mestra.Onde ela andará ?
"Eu daria tudo que eu tivesse
Pra voltar aos dias de criança
Eu não sei pra que a gente cresce
Se não sai da gente essa lembrança.
Eu era feliz e não sabia."
Trecho da música de Ataúlfo Alves, "Meus tempos de criança",
cantada nas escolas, em homenagem aos professores, no seu dia.

"Eu daria tudo que eu tivesse
Pra voltar aos dias de criança
Eu não sei pra que a gente cresce
Se não sai da gente essa lembrança.
Eu era feliz e não sabia."
Trecho da música de Ataúlfo Alves, "Meus tempos de criança",
cantada nas escolas, em homenagem aos professores, no seu dia.
domingo, 4 de janeiro de 2015
O despertar das estórias
Lembro-me de
uma estória, contada por mamãe, de uma
família que passava muitas necessidades depois da morte da mãe. A mocinha fazia crochê e vendia para ajudar
nas despesas da casa. Escrevendo isto, percebo agora que esta era a sua própria
estória. Vovó morreu, quando mamãe era solteira e vovô precisou fechar a loja de tecidos, com
isto as dificuldades começaram. Esta estória sempre vinha nas minhas lembranças
de criança despertando em mim o desejo de crescer, estudar e trabalhar para
ajudar financeiramente em casa . Éramos 10 irmãos. Meu pai era escrivão e tinha uma pequena farmácia, mamãe era professora leiga. Vivíamos modestamente. Desde
pequenina ajudava mamãe nos afazeres domésticos e cuidava dos meus irmãos
menores. Às vezes, sentia uma raiva danada quando vinha atrás de mim,
varrendo os lugares que eu havia varrido. Porque eu deveria varrer se ela varreria
tudo depois? Hoje, sei que ela estava apenas tentando me ensinar a fazer as coisas corretamente.
Fotos
antigas de Guiricema -Praça Cel. Luís Coutinho - A rua onde mamãe
morava com a casa de vovô - A família de
vovô Jorge (foto tirada para ser enviada ao Líbano onde vivia a família dele) - No centro papai e meu irmão mais velho, mamãe e eu, à direita tio Michel e tia Ferraz, à esquerda tia Elza .
sábado, 3 de janeiro de 2015
Lembranças
Lembranças... Elas nunca chegam dentro de uma cronologia, basta um cheiro, um sabor, uma imagem, um sonho, uma viagem à terra natal e elas surgem como numa mágica. Voltamos no tempo, em nosso passado precioso, onde acumulamos experiências, boas ou ruins e que nos fizeram ser o que somos hoje.
Fotos de Ana Lucas - com o pseudônimo de Hanna Gantous no antigo fotolog Escrita com Luz - site Terra
Tenho 71 anos, vividos intensamente, com todas as alegrias, perdas, tristezas e sonhos. Sonhei muito e a própria vida, na maioria das vezes, se encarregou de transformá-los em realidade. Meu baú transborda de lembranças e imagens...
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