Nos meus guardados, encontrei um par de luvas amareladas. As
lembranças afloraram. Era 09/12/56, meu avô fora soterrado enquanto dormia e
morrera. Ocorrera uma forte tempestade em Visconde do Rio Branco e uma casa em
construção ao lado da casa de meu tio desmoronou, soterrando meus primos e meu
vovô. Eles eram jovens e resistiram, ele infelizmente não conseguiu.O que tem a ver um par de luvas com a morte de meu avô? Nossa
formatura da 4ª série primária seria no dia seguinte, em Guiricema, onde eu
estudava e morava com minha tia Fia, pois em Tuiutinga as professoras só lecionavam até a 3ª série.Era costume da época fazer o encerramento do ano letivo com a entrega dos
diplomas de conclusão do curso primário,
no antigo cinema da cidade , pois a
maioria dos alunos não continuaria seus estudos . Fui escolhida para oradora da nossa turma. Mamãe mandara fazer um
vestido lindo, de tule azul, com forro de tafetá e comprara
as luvas brancas, salpicadas de bolinhas em alto relevo, que
infelizmente nunca usei. Na manhã do dia 10, minha tia Fia, aproximou-se de mim
e disse que eu não iria , pois estávamos de luto e não ficaria bem a nossa
presença numa festa. Chorei muito...muito... Estava triste pela perda de meu avô e a da minha formatura. Mamãe usou roupas pretas durante um ano e só saía para ir à igreja. Eu e
minhas irmãs passamos a usar vestidos
brancos, com estampa de flores pretas e meus irmãos usavam uma tarja preta na manga da camisa em
sinal de luto. Hoje, não se ostenta nada
para demonstrar nossas perdas. A vida não para à espera da passagem de nossas dores.Nunca usei a luva, mas hoje, descobri nela um rasgo e uma
costura feita a mão. Ela foi útil e muito usada por todas as minhas quatro
irmãs menores nas coroações de Nossa Senhora, em Tuiutinga.Depois da formatura, recebi a visita de nossa querida e
amada professora Maria do Carmo Torres. Deu-me de presente um livro de Francisco Marins, A Aldeia
Sagrada, que contava a estória de
Canudos e Antônio Conselheiro. Este foi
o primeiro livro de literatura que ganhei, com uma bela dedicatória. Guardo-o comigo como um precioso tesouro. Em
1964, retornei a Guiricema, ao Grupo Escolar Cel. Luís Coutinho, onde iniciei minha
carreira como professora e colega de minha querida mestra.Onde ela andará ?
"Eu daria tudo que eu tivesse
Pra voltar aos dias de criança
Eu não sei pra que a gente cresce
Se não sai da gente essa lembrança.
Eu era feliz e não sabia."
Trecho da música de Ataúlfo Alves, "Meus tempos de criança",
cantada nas escolas, em homenagem aos professores, no seu dia.

"Eu daria tudo que eu tivesse
Pra voltar aos dias de criança
Eu não sei pra que a gente cresce
Se não sai da gente essa lembrança.
Eu era feliz e não sabia."
Trecho da música de Ataúlfo Alves, "Meus tempos de criança",
cantada nas escolas, em homenagem aos professores, no seu dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário