quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Um par de luvas amareladas

        Nos meus guardados, encontrei um par de luvas amareladas. As lembranças afloraram. Era 09/12/56, meu avô fora soterrado enquanto dormia e morrera. Ocorrera  uma forte tempestade  em Visconde do Rio Branco e uma casa em construção ao lado da casa de meu tio desmoronou, soterrando meus primos e meu vovô. Eles eram jovens e resistiram, ele infelizmente não conseguiu.O que tem a ver um par de luvas com a morte de meu avô? Nossa formatura da 4ª série primária seria no dia seguinte, em Guiricema, onde eu estudava e morava com minha tia Fia, pois em Tuiutinga  as professoras só lecionavam até a 3ª série.Era costume da época fazer o encerramento do ano  letivo com a entrega   dos diplomas  de conclusão do curso primário, no antigo cinema da cidade , pois  a maioria dos alunos não continuaria seus estudos . Fui escolhida para  oradora da nossa turma. Mamãe mandara fazer um vestido lindo, de tule azul, com forro de tafetá  e comprara as luvas brancas,  salpicadas  de bolinhas  em alto relevo, que infelizmente nunca usei. Na manhã do dia 10, minha tia Fia, aproximou-se de mim e disse que eu não iria , pois estávamos de luto e não ficaria bem a nossa presença numa festa. Chorei muito...muito... Estava triste pela perda  de meu avô e a da minha formatura.  Mamãe  usou roupas pretas durante um ano  e só saía para ir à igreja. Eu e minhas irmãs passamos a usar  vestidos brancos, com estampa de flores pretas e meus irmãos  usavam uma tarja preta na manga da camisa em sinal de luto. Hoje, não se ostenta  nada para demonstrar nossas perdas. A vida não para à  espera da passagem de nossas dores.Nunca usei a luva, mas hoje, descobri nela um rasgo e uma costura feita a mão. Ela foi útil e muito usada por todas as minhas quatro irmãs  menores nas coroações  de Nossa Senhora, em Tuiutinga.Depois da formatura, recebi a visita de nossa querida e amada professora Maria do Carmo Torres. Deu-me de presente  um livro de Francisco Marins, A Aldeia Sagrada,  que contava a estória de Canudos e Antônio Conselheiro.  Este foi o primeiro livro de literatura que ganhei, com uma bela dedicatória.  Guardo-o comigo como um precioso tesouro. Em 1964, retornei a Guiricema, ao Grupo Escolar Cel. Luís Coutinho, onde iniciei minha carreira como professora e colega de minha querida mestra.Onde ela andará ?

"Eu daria tudo que eu tivesse 
Pra voltar aos dias de criança 
Eu não sei pra que a gente cresce 
Se não sai da gente essa  lembrança. 
Eu era feliz e não sabia."
 Trecho da música de Ataúlfo Alves, "Meus tempos de criança",
cantada nas escolas, em homenagem aos professores, no seu dia.


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